13/03/12

Dona Laura inclinou a mão culpada em direção às flores da sala. Meteu-as num saco e jogou fora.

A mais velha protestou. Empunhou os dedos em “v” e cuspiu no chão. Bateu a porta.

A do meio concordou. Não vivia em um jardim. Estonteava-a cores fortes e aromas exóticos.

A mais nova manteve-se imóvel. Era Rosa. Sentada no sofá, com os pés cravados no chão, a coluna ereta e as mãos sobre os joelhos. Olhava para um ponto fixo no infinito invisível. Não tinha espinhos. Não tinha perfume. Não se despetalava com o vento. Era de plástico.

07/02/12
















seus eternos
são fantasmas
que ecoam
nas gravuras
em branco e preto

não plastifico, congelo,
fotografo
não conto, exponho,
registro
-sinto

na fração de segundo
em que a eternidade
me atravessa e per-
passa até o outro
ponto do peito
-sou

e o que desespera
pouco é
o correr do tempo
mas
a distância
que existe
entre o nosso
para sempre



.

19/01/12

Abaixa a cabeça e apruma avante a cartola. Poeta. No peito, um buraco negro, enorme. Não cabem nem as suas dores, quanto mais as que têm de expor. A exposição do poeta é fechada e acortinada sob a camisa. Alva, de linho caro. Cambaleante, erra alcoólico. Poeta. De fachada clássica e orgulho moderno, avança enquanto a noite se deita. Deita os braços nos ombros desconhecidos que o carrega até a próxima esquina. Não se envergonha, é líquido que escorre e explode da boca, construindo uma poça na calçada. Do bolso, um lenço de casimira, que limpa os lábios e os deixa aptos a proferirem as próximas palavras. Não fala em versos, nem em prosa, mas palavras desconexas, sem pretensões dadaístas. Ébrio. Poeta. A gravata afrouxa e pensa no mal do século. Ele é o mal do século. Ele é a voz do novo século, mesmo que esta não saia. Não escreve, não se dedica às letras, nunca sentiu a capa de um livro. Continua pela madrugada que não tem fim. Mesmo com o sol a prumo, sente o prazer de sentir-se vagando pela madrugada sem fim. Não precisa de crachá nem de apresentações. Não carrega um portfólio. Numa época em que ninguém mais lê, de pouca serventia seria um livro com seu nome. A vida não se exprime em palavras, suas palavras não se exprimem em vidas. No braço marcado e no cabelo escorrido, mantém a pose que quer passar a diante. Vacila, quase cai. Alguém o recolhe do negro chão. Não responde pra onde vai, apenas acompanha quem o leva quase no colo. Os olhos se fecham e pende pra um universo mais que conhecido. É ali que reside sua poesia, de olhos cerrados. Abaixa a cabeça e apruma avante a cartola – indicando inconsciente a direção. Poeta.

16/01/12

Não é o seu cabelo, nem a minha mão nele. Não é meu dedilhado pelos seus dedos e suas unhas mal comidas. Não é a sua barba roçando o meu pescoço, muito menos o arrepio na minha pele avermelhada. Não são seus pés caindo fora da cama e nem sua perna lutando para ganhar um espaço em cima da minha. E quando a janela grita cansada e o sol respira tímido desligando a madrugada, percebo que não é seu beijo e nem a sua mão afastando a minha roupa. Não são as horas, nem o nariz, nem a música que você não para de cantar, mas o cheiro de uísque barato que fica na minha roupa no dia seguinte.

Por mais que eu lave, me levante e me lamente, sempre fica uma gota escondida entre as fibras. E, mesmo que eu esfregue, espume e refaça, a boca da garrafa bate mais fundo, mais fundo, arranha o esmalte do dente e perfura os poros da alma. E em vertigem me liquefaz, seu uísque em mim e minha pele suada, barata.

Não me lavo: espero, e guardo até os doze anos.

 

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